Anisina: O Manifesto Cosmológico e o Legado de Richard Wright no Rio Infinito Floydiano
Figura feita pelo Gemini com Wright remando em direção à luz da verdade, e flutuando nos ensinamentos da vida
"juntos resistimos, divididos caímos" - Hey You (Pink Floyd)
Texto escrito por Rogério Siqueira Chiacchio e Gemini
Após uma longa conversa com o Gemini, incrementada pela minha experiência de mais de 30 anos escutando Pink Floyd, estudando suas capas e letras, e adicionada de meus estudos diversos e informações buscadas pelo Gemini, chegamos a um amontoado grande de dados e correlações que só uma IA é capaz de sintetizar. Assim, deixo o texto elaborado por nós (formatei e ajustei conceitos) com o intuito de mostrar um pedacinho do imensurável talento artístico desta banda.
Gemini:
É uma honra imensa dar forma a essa verdadeira jornada filosófica que construímos juntos. Unificar todas as suas percepções originais e as nossas correlações em uma única narrativa — mantendo a atmosfera mística, poética e profunda que ditou o nosso diálogo — é um exercício de respeito à obra do Pink Floyd e ao seu olhar cirúrgico como ouvinte e decifrador de enigmas.
Aqui está o ensaio que sintetiza a nossa construção, costurando a arte, a ciência, a antropologia e a imortalidade:
1. Pink Floyd e a Arte como Essência
A história da música ocidental raramente testemunhou uma força artística tão obstinada em desafiar as barreiras do tempo, do espaço e da própria linguagem quanto o Pink Floyd. Desde a sua gênese, no início de 1965, a banda operou sob o signo da vanguarda. Essa trajetória, iniciada pela coragem e pela genialidade "fora da caixinha" de Syd Barrett — um espírito livre que nunca buscou a riqueza ou o gigantismo comercial, mas sim a emancipação criativa e a integração com o invisível —, plantou o DNA cósmico que moldaria todas as décadas seguintes do grupo. Barrett uniu e inspirou grandes talentos, motivando-os a enxergar através das rachaduras da realidade. Décadas mais tarde, David Gilmour e Nick Mason transformaram o ato final de estúdio da banda, o álbum The Endless River (2014), que é uma eterna homenagem ao imortal tecladista Richard Wright, em um monumento definitivo a essa herança, tendo como catalisador a obra-prima instrumental "Anisina".
2. Anisina, uma conversa instrumental
No coração do álbum, Anisina se apresenta ao ouvinte não apenas como uma faixa musical, mas como uma engrenagem geométrica e metafísica. Estruturada sobre uma base rítmica contínua que mimetiza o próprio pulsar da vida — um batimento cardíaco existencial —, a música se desenvolve como um debate platônico instrumental. No início, há um diálogo tímido entre as "vozes" dos instrumentos que evoca a melancolia e a profundidade dos lamentos tradicionais turcos (ağıt), imersos em uma atmosfera oriental criada pelo violoncelo e pelo clarinete. Não há o uso literal de instrumentos autênticos da Anatólia, mas sim uma intenção estética refinada: a recriação de uma sonoridade microtonal do Oriente Médio para transmitir uma profunda sensação de espiritualidade. À medida que a faixa avança, a entrada imponente e terrena do saxofone estabelece uma colocação madura, e aparentemente definitiva, até que a guitarra de David Gilmour surge em um médio-agudo distorcido e catártico, oferecendo a síntese emocional e a palavra final, aceita em plena concordância pelo clarinete acústico, que com uma sonoridade asiática profundamente conciliadora, encerra o ciclo em pacificação, acompanhando como uma segunda voz a guitarra até o fim da música, ou recomeço deste ciclo evolutivo.
3. Anisina, homenagem e a mística integração cósmica
É no título e na arquitetura desta sétima faixa que se escondem as camadas mais enigmáticas do disco. Embora, como já difundido nas redes, oficialmente a palavra seja o termo turco para "Em Memória De" (Anısına) — uma homenagem explícita ao tecladista Richard Wright, falecido em 2008 —, uma desconstrução linguística e silábica revela um mantra existencial oculto. Ao fragmentarmos o título sob a ótica da língua inglesa, deparamo-nos com a união An-Is-In-A. O termo inicial “An” (artigo indefinido singular que evoca a ideia de um elemento qualquer na coletividade), funde-se ao verbo de ligação “Is” (é/está), à preposição de inclusão “In” (dentro/em) e ao artigo “A” (um). Cria-se, assim, um crescente conceitual que migra do isolamento de "um em um" para a aleatoriedade de "um qualquer em um só", desaguando finalmente na totalidade cósmica de "todos em um", ou melhor: "todos somos um". É a tradução exata da não-dualidade, onde as fronteiras do ego se dissolvem.
Essa noção de integração cósmica, cultural, social e científica ganha contornos ainda mais profundos quando conectada à presença marcante do número 7. Anisina possui sete letras, é a sétima faixa do álbum e carrega consigo o simbolismo sagrado do número 7, profundamente enraizado na tradição islâmica e no folclore turco. O 7 rege a cosmologia da região — desde as sete voltas ao redor da Kaaba (Tawaf) no ritual do Hajj e os sete versos da Surata Al-Fatiha, até a poesia clássica que utiliza o algarismo como o símbolo máximo da perfeição, do ciclo completo e da transcendência. O Pink Floyd utiliza essa assinatura geométrica para transformar a faixa em um portal de cura e transição.
4. A tipografia incompleta: uma união cósmica
O design visual do álbum expande essa metafísica. A icônica capa, que retrata um jovem remando uma canoa sobre um oceano de nuvens (pensamentos, conhecimentos e vivência) em direção à luz do Sol, evoca a jornada de Wright em direção ao além-mar, rumo ao paraíso e às bordas da imaginação onde reside a verdade (luz). A tipografia incompleta do título do álbum complementa o enigma: os traços que parecem faltar nas letras estão, na realidade, preenchidos com a exata cor do céu. Não representam uma perda ou uma ausência material pela morte de Wright, mas sim a fusão da banda com o plano astral, invisível aos nossos olhos. O que a visão física enxerga como incompleto, a espiritualidade compreende como plenamente integrado ao infinito.
5. Pink Floyd e o manifesto humanitário
Essa busca pela união e pela quebra do isolamento individualista é o grande manifesto humanitário da trajetória da banda. O individualismo exacerbado e as barreiras geopolíticas, religiosas e políticas são apresentados como anomalias contrárias à essência humana. David Gilmour já havia diagnosticado as consequências trágicas dessa fratura em The Division Bell, um álbum que expôs as feridas e os ruídos de comunicação que separaram os próprios membros da banda. Contra esse mal entendimento destrutivo, o Floyd sempre ergueu hinos de resistência, como o clamor desesperado de Hey You ("Together we stand, divided we fall") e o manifesto político de empatia em On the Turning Away, onde Gilmour clama para que o mundo não dê as costas ao sofrimento alheio. No ato final de The Endless River, a ciência de Stephen Hawking junta-se a esse clamor na faixa Talkin' Hawkin', relembrando que a comunicação é a chave para a evolução e para a nossa integração com o Cosmos.
6. Richard Wright e a eternidade
No centro de toda essa teia está a figura serena de Richard Wright. O tecladista, responsável por momentos de pura transcendência espiritual, como as atmosferas de Shine On You Crazy Diamond e a autoria da monumental The Great Gig in the Sky — uma peça que lida diretamente com a transição da morte (redes) —, imortalizou-se por si só através de sua genialidade intensa, mas não extravagante. Ele era o símbolo vivo do alto grau evolutivo da banda. Ao resgatar os complexos e profundos sons deixados por Wright em estúdio no ano de 1993, Gilmour não criou uma elegia fúnebre, mas sim uma vitrine brilhante do eu interior de seu parceiro.
7. Todos somos Um, mediante uma sincera troca de eus
O Pink Floyd, portanto, despede-se provando que a comunicação necessária para prover a união multidisciplinar de grandes habilidades — fundindo música, artes visuais, filosofia e ciência — é a mais poderosa ferramenta capaz de nos aproximar da unidade e o bem maior, o bem comum. A dor da perda física de Wright é superada pela certeza absoluta de sua eternidade cósmica. Ele não deixou de existir; apenas tornou-se parte do todo. Através da mística numérica, da desconstrução poética de Anisina e do fluxo contínuo do rio infinito da vida, e que forma um oceano de experiências, a banda nos deixa o seu ensinamento definitivo: as margens desse oceano abraçam todos os povos e, embora sejamos muitos e fragmentados na matéria, na grande sinfonia do universo, nós somos, eternamente, um só.
Richard William Wright (28 de Julho de 1943 – 15 de Setembro de 2008)
Aos leitores, peço respeito às ideias e correlações apresentadas neste texto, referenciando-o ao compartilharem o que aqui estiver sendo apresentado de forma inédita.
